terça-feira, 30 de agosto de 2016

O RETRATO DE DORIAN GRAY (Albert Lewin/1945)

Sinopse: Homem faz pacto com o diabo para que seu retrato envelheça, enquanto ele continua jovem. À medida que ele se afunda numa vida de abusos, o retrato fica cada vez mais distorcido. Baseado no romance de Oscar Wilde.

Um dos filmes P&B mais esplendorosamente fotografados de todos os tempos. Harry Stradling ganhou o Oscar por iluminar cenários detalhados, sob verniz realista e foco profundo - evitando o excesso artificial de seus futuros musicais coloridos -, permitindo que a penumbra marque presença estratégica no quadro, fornecendo uma aura gótica em determinadas cenas, condizente às correntezas de agouro e maldição a permear a trama. O papel-título é vivido por um ator cuja inexpressividade talvez seja intencional, afinal trata-se de um aristocrata que renunciou aos sentimentos - à alma - em troca da juventude eterna. Simplismo passa longe de qualquer área desta produção, logo quem temer a presença de infindáveis discursos moralistas acerca do triunfo do caráter íntegro sobre a busca inconsequente da satisfação pessoal estará se preocupando à toa. Uma fantasia madura, sofisticada em termos formais e temáticos, de mensagem atemporal. [28/3/16] 

domingo, 28 de agosto de 2016

Rapidinhas

O Mistério da Viúva Negra (Bob Rafelson/1987): indicado para quem aprecia suspenses sem o menor resquício de tensão ou mistério. A narrativa apenas segue de um ponto a outro, escrava do roteiro, mecanicamente. A única cena em que a protagonista é colocada em perigo pode ser telegrafada a distância. O jogo de gato-e-rato entre a investigadora e a predadora de maridos ricos geraria maior interesse se a rígida Theresa Russell fosse uma atriz do calibre de sua contraparte Debra Winger, capaz de extrair sumo de um papel pouco desenvolvido. 

Uma Noite de Crime: Anarquia (James DeMonaco/2014): foram-se o suspense e a crueldade do primeiro, dando lugar a tiroteios típicos de alguma fita de ação de segunda categoria, doses galopantes de maniqueísmo contra as ditas "elites" e lições básicas de moral sobre poupar vidas, ajudar pessoas em perigo, unir-se em face da adversidade etc. O filme é como um cão que ladra, mas não morde. Ainda assim, o conceito permanece poderoso, Frank Grillo sabe combinar dureza e decência no papel principal, e a estrutura tripartite do início funciona bem.   

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Great Shot


quarta-feira, 24 de agosto de 2016

IMAGENS (Robert Altman/1972)

Sinopse: Cathryn é uma mulher à beira do histerismo, que confunde as identidades dos seus amantes, criando uma realidade fantasiosa. Seus temores a levam a um único desejo: destruir o mundo interior que ela construiu.

Altman é reconhecido por comédias dramáticas estruturadas em mosaico, acompanhando vários indivíduos em núcleos paralelos que se interseccionam. Pouco se fala da sua faceta de investigador da psique feminina, exercitada em obras de vanguarda cujo foco se afunila sobre uma única protagonista - ou, no caso de 3 Mulheres, uma dupla. Inusitado notar a influência de Bergman/Persona nesse compartimento específico da carreira de Altman, mas ela é inconfundível (e admitida, conforme prova o making of contido no DVD). 

Para dar vazão à esquizofrenia da mente desequilibrada de Cathryn, Altman associou-se ao diretor de fotografia húngaro Vilmos Zsigmond, criando um claustrofóbico estudo de personagem pontuado por instantes de horror surreal em que visões cotidianas recorrentes adquirem tonalidades ameaçadoras e alucinações ambíguas invadem a realidade, tornando-a incerta. A trilha de John Williams, rica em percussões japonesas, acentua o clima de desorientação. 

O enredo em si tem importância relativa; a proposta de Imagens favorece o sensorial, o associativo, o subjetivo, de maneira ainda mais concentrada do que no já mencionado 3 Mulheres, que obteve a aceitação da crítica que este jamais usufruiu. 

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

DEUS BRANCO (Kornél Mundruczó/2014)

Sinopse: Privilegiando os cães de raça, uma nova lei impõe uma taxa pesada sobre as raças cruzadas. Os donos passam a abandonar seus cães e os refúgios ficam rapidamente superlotados. Lili, 13 anos, luta para proteger o seu cão, Hagen, mas seu pai acaba abandonando o animal nas ruas. Hagen e a sua dona procuram desesperadamente um ao outro, até que Lili perde as esperanças. Lutando para sobreviver, Hagen percebe depressa que nem todo mundo é o melhor amigo do cão. Ele junta-se a um bando de cães errantes.

Desconcertante deparar-se com uma produção húngara que repete o que há de melhor e pior no cinema hollywoodiano. Dentre os elementos indesejáveis, a intrusão de uma trilha musical melodramática e o injustificado vício da câmera-na-mão trêmula, feia de se contemplar. Por outro lado, o desenvolvimento adepto de uma premissa fantástica (cães se rebelando de maneira organizada contra humanos que os maltratam) e a proficiência na execução de sequências de ação/suspense surpreendem quem associa a Hungria somente a Miklós Jancsó. Os que não se importarem com os lugares-comuns e tiverem predisposição favorável à temática anticonformista poderão achar o programa catártico, tanto pela revolta animal quanto pela trama paralela de amadurecimento e rebeldia de uma garota adolescente.

sábado, 20 de agosto de 2016

O DESTINO DO POSEIDON (Ronald Neame/1972)

Sinopse: Um transatlântico de luxo, o S.S. Poseidon, é atingido na véspera de Ano Novo por uma onda gigantesca, fazendo-o virar de cabeça para baixo.

Tirando o óbvio - a tecnologia empregada nos efeitos especiais -, o maior diferencial desta versão original em comparação à refilmagem de 2006 é a proporção entre o tempo dedicado ao pleito dos personagens e as cenas de ação. O arrasa-quarteirão compacto (98 minutos) dirigido por Wolfgang Petersen adere à cartilha de entretenimento montanha-russa, rápido e intenso; já o claustrofóbico épico-catástrofe capitaneado por Neame, de quase duas horas de duração, a todo instante abre espaço à coragem e aos receios do pequeno grupo de sobreviventes. Uma questão de prioridades díspares - espetáculo total x dramaturgia mínima - que alguns enxergarão como sintoma da tendência hollywoodiana de cada vez menos lembrar-se do elemento humano em seus produtos populistas. O elenco oscarizado ajuda a distrair a atenção dos diálogos básicos e do humor bobo, destacando-se Shelley Winters e Red Buttons.