quarta-feira, 18 de outubro de 2017

ANNABELLE 2: A CRIAÇÃO DO MAL (David F. Sandberg/2017)

Sinopse: Anos após a trágica morte de sua filha, um habilidoso artesão de bonecas e sua esposa decidem, por caridade, acolher em sua casa uma freira e dezenas de meninas desalojadas de um orfanato. Atormentado pelas lembranças traumáticas, o casal ainda precisa lidar com um amendrontador demônio do passado: Annabelle, criação do artesão.

Distante anos-luz da intensidade de Invocação do Mal, marginalmente superior ao primeiro Annabelle (do qual apropria a melhor cena, recontextualizando-a para servir de base ao final-surpresa). É o tipo de trabalho que alguém generoso chamaria de bem feito, embora nada o distinga de produções semelhantes, com exceção da performance da capabilíssima atriz-mirim Talitha Bateman. A "criação" aludida no título é relegada a flashbacks, tratada de maneira quase indiferente pelo roteiro, colocando em dúvida o propósito desta prequel. Também questionável a ostentação dos movimentos de câmera: chamam atenção a si mesmos em vez de dinamizar o suspense. O até então promissor universo cinematográfico de The Conjuring está dando sinais precoces de esgotamento criativo. ★★★

sábado, 14 de outubro de 2017

BLADE RUNNER 2049 (Denis Villeneuve/2017)


Sinopse: Trinta anos após os acontecimentos do primeiro filme, a humanidade está novamente ameaçada, e dessa vez o perigo pode ser ainda maior. Isso porque o novato oficial K (Ryan Gosling), desenterrou um terrível segredo que tem o potencial de mergulhar a sociedade no completo caos. A descoberta acaba levando-o a uma busca frenética por Rick Deckard (Harrison Ford), desaparecido há 30 anos.

Existem filmes em que a narrativa se desenvolve sem pressa e filmes em que o diretor impõe uma vagareza forçada aos atores. São coisas diferentes. Blade Runner 2049 se enquadra na segunda categoria.

Tomadas de personagens se deslocando de um local a outro parecem rodadas debaixo d'água; quando predominam os diálogos, o elenco recita as falas como se estivesse sob efeito de sedativos. É uma questão de estilização engessada, não de encaixar correrias ou tiroteios no roteiro para prender a atenção dos impacientes. Villeneuve almejou um ar de solenidade introspectiva em tese compatível com o enredo - uma investigação existencial sobre identidade e memória. Faltou escolher melhor quando e o quanto adensar a encenação. Um momento em particular - envolvendo a descoberta de um entalhe de madeira escondido numa fornalha - se aproxima da paródia graças à lentidão excruciante, à música tonitruante e à ênfase na expressão angustiada de Ryan Gosling.

Nota-se também a redundância dos interlúdios românticos entre Gosling e sua amante holográfica. A primeira interação deles já comunica o que as demais insistem em repisar. Emblemático da incapacidade de síntese do filme, cuja metragem (163 minutos) se faz sentir.

Nada disso torna 2049 ruim. Vistas e sons impressionam; a proposta temática estimula a imaginação. Como o original, não pertence ao gênero Ação. É atmosférico, imersivo, um raro espetáculo a conjugar o sensorial e o cerebral. Mas o Blade Runner de Ridley Scott fluía organicamente. Chegava ao ponto sem exacerbar as próprias características. Enfim, não deixava transparecer um grau de pretensão superior ao alcance do material. ★★★

terça-feira, 10 de outubro de 2017

FEITIÇO DO TEMPO (Harold Ramis/1993)

Sinopse: Um repórter de televisão (Bill Murray) que faz previsões de meteorologia vai à uma pequena cidade para fazer uma matéria especial sobre o inverno. Querendo ir embora o mais rapidamente possível, ele inexplicavelmente fica preso no tempo, sendo condenado a repetir sempre os eventos daquele dia.

Caso fosse um drama, Feitiço do Tempo provavelmente teria resvalado num folhetim de autoajuda cheio de pesarosas lições de moral: viva cada dia de uma vez! Seja a melhor versão de si mesmo! Enxergue o copo meio cheio, não meio vazio! Dá para imaginar a trilha lacrimosa sublinhando cenas concebidas para tocar o coração dos votantes da Academia. Coautores do texto, Danny Rubin e Ramis optaram pela comédia. O bom humor e a despretensão na abordagem da premissa tornam palatável a mensagem edificante, evitando a pieguice e a coerção emocional, permitindo que o trágico e o romântico se destaquem das risadas em momentos precisos sem que o todo perca a coerência tonal. Engenhoso, pode dar ares de que será um programa bobo no início, mas revela uma maturidade insuspeita à medida que avança. Ganhador do BAFTA de Melhor Roteiro Original. ★★★

sábado, 7 de outubro de 2017

O ESTRANHO QUE NÓS AMAMOS (Sofia Coppola/2017)

Sinopse: Um soldado da União, ferido em combate durante a Guerra de Secessão, acaba encontrando refúgio e um lugar para se curar dentro de um internato para mulheres localizado em território Confederado. Lá, o soldado se recupera, mas acaba conquistando o coração de algumas das mulheres no processo.

É um clichê proclamar que "cada quadro merece estar pendurado numa parede" quando se busca elogiar a beleza pictórica de um filme. É um clichê pelo qual alguém a comentar O Estranho que Nós Amamos estaria perdoado. A iluminação naturalista de Phillipe Le Sourd alça a obra à estirpe de Barry Lyndon e Os Duelistas. Envelopa o público numa atmosfera evocativa, rica em texturas, transportando-o a uma época acessível somente por meio de livros, pinturas e outros filmes. Falantes de língua inglesa usariam um termo apropriado para descrever esse tipo de experiência: mood piece.

Colocar tamanha ênfase ao aspecto cosmético faria um desserviço à contribuição artística de Coppola e seu elenco. Neste drama de tensão crescente, hospitalidade e altruísmo andam de mãos dadas com a desconfiança que, fundida ao desejo, cede espaço à manipulação, levando à tragédia. A rebelião das mulheres contra o resgatado-tornado-algoz é uma reação lógica de autopreservação. O desenrolar paulatino dos eventos prova o domínio de Coppola sobre ritmo e tom. As nuances inerentes ao caráter das personagens são exploradas com sutileza, em especial por Kirsten Dunst e Nicole Kidman.

Merecido prêmio de direção em Cannes. ★★★★

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

JOGO PERIGOSO (Mike Flanagan/2017)

Sinopse: Um casal viaja pra uma casa de campo para aproveitar um momento romântico que envolve jogos adultos. Depois de ser algemada na cama, Jessie (Carla Gugino) participa dos jogos do marido Gerald (Bruce Greenwood), até que a situação tem uma mudança trágica. Ela é deixada amarrada e sozinha com suas memórias dolorosas de infância, um cachorro de rua faminto, as vozes em sua mente, e, possivelmente, alguém que a observa do canto escuro do quarto.

spoilers! Fragmentado, lançado no começo do ano, trata de sobreviventes de abuso. Na superfície, um suspense de conotações fantásticas; no fundo, um encorajador manifesto de empatia. "The broken are the more evolved. Rejoice", declara a certa altura o sequestrador de múltiplas personalidades de James McAvoy, vindo ele mesmo de uma infância traumática.

Jogo Perigoso aborda o tema sob outro ângulo. Vitimiza Jessie física e psicologicamente, em pouco se diferenciando de um torture porn. Limita sua transformação interior à tardia tomada de consciência de que seus problemas partem de homens próximos (marido, pai) e instituições que a obrigam a com eles dividir o teto (casamento, família). Levando em conta o simbolismo (cão carniceiro, criminoso deformado = masculinidade predadora), parece razoável adotar a interpretação de que esses personagens representam a maioria.

Ninguém acusaria Flanagan de encenar mal o show de horrores, nem Gugino de não se entregar de corpo e alma a um papel exigente - o que não justifica fazer vistas ao fato de que um filme pode ser competente na forma e desprezível no conteúdo. Encarado como entretenimento, Jogo Perigoso repele; como estudo sobre superação, oferece apelação rancorosa em vez de algo construtivo. ★

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

EM RITMO DE FUGA (Edgar Wright/2017)

Sinopse: O jovem Baby (Ansel Elgort) tem uma mania curiosa: ele precisa ouvir músicas o tempo todo para silenciar o zumbido que perturba seus ouvidos desde um acidente na infância. Mesmo assim, o rapaz revela-se um motorista excelente, e começa a trabalhar para uma gangue de criminosos. Quando um assalto a banco não sai como planejado, ele cai na estrada em fuga.

O termo 'carismático', geralmente associado a pessoas, cai como uma luva em Baby Driver. O elenco, o romance, o humor, a trilha licenciada, cheios de personalidade, conquistam a simpatia do público sem deixar aquela sensação de calculismo de outras produções que tentam ser moderninhas. Os tiroteios ajustados à música, um toque especial de criatividade, refletem o espírito jovial de Edgar Wright. Vertiginosa e precisa, a ação justificaria uma vaga no Oscar para os editores Jonathan Amos e Paul Machliss. Escapismo de primeira. ★★★★